Seguidores

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Deslizando palavras ...

Há quem diga que ler é uma tarefa exigente, é preciso tempo disponível, interesse. Eu diria que é importante o envolvimento, o gosto.

Normalmente, eu costumo ler os textos cobrados na faculdade, isso é minha obrigação. Entretanto, não é algo que faço por mera obrigatoriedade. Gosto muito do que leio, ainda que com o decorrer dos anos pareçamos mais livrarias ambulantes que seres humanos normais. É um preço, uma mudança nas nossas lentes, em que excesso ou nenhuma luz faz mal da mesma forma.

Há dias em que prefiro poesia, quase sempre repetidas. Transito muito entre Pessoa, Saramago, Drummond. Às vezes passo o mouse em sites à procura de alguma que desperte meu interesse, meus sentimentos. Já houve dias em que vasculhei tudo que é texto quanto eu tinha próximo de mim, li filosofia, antropologia, sociologia. Mas precisava mesmo, era ler poesia. E quanto mais eu lia, mais eu queria ler.

Às vezes eu rabisco coisas que digo ser poesia, não sei, estamos tão habituados a escrever artigos, resenhas e resumos que torna-se difícil distinguir qualquer coisa. Qualquer coisa, no sentido de poder ser mesmo qualquer coisa. Porque não? A escrita é imagem que transita entre corpo e alma de quem escreve e pode ser coisa alguma, ou nada parecido para quem ler com o que quem escreveu pretendeu dizer.

Quem somos nós, os escritores para determinar quais lentes, que referenciais o leitor vá se utilizar para interpretar algo? Que somos nós para querermos que o outro leia a nossa maneira? Grande baboseira, o olhar deve ser livre.

Na verdade, não sei por que, estou escrevendo isso! Minha intenção era falar de outras coisas. Na realidade, eu queria fazer uma discussão entre um livro que li e uma poesia, não a poesia completa, mas um trecho, um argumento que inculquei aqui na minha cabeça pós ler uma coisa e outra.

O livro trata sobre o papel político da educação, perpassa por uma discussão filosófica da ciência, bem como por discurso humanístico de ambas. E permite reflexões aprofundadas e em embasadas desse entrelaço.

Escrito por Rubem Alves - Conversas com quem gosta de ensinar - é um livro que recomendo não só para alunos de curso de licenciatura ou professores já formados. É um livro que qualquer pessoa pode e deve ler. Possui uma linguagem bastante acessível, inclusive, essa é uma das grandes discussões do texto.

Afinal, para quem estamos escrevendo? Seria para nossos iguais – intelectuais e professores atuantes?

O Rubem faz uso de várias metáforas para abrir sua discussão. Ele diz logo no início do texto que tem gosto por ler Nietszche, Kierkegaard, além muitas outras coisas. Confesso, são filósofos que também tenho apreço, apesar, de ter uma leitura rala.

Ele discute com grandes argumentos0 o papel político da educação. Em que fala da domesticação profissional, da educação como aparelho ideológico do Estado, até chegar no discurso sobre o ensino como ato de amor. Diferencia professor de educador.

Na sua leitura o professor é um técnico treinado que apenas reproduz o que o Estado determina. Enquanto que o educador, pensando no que ele tira de proveito da discussão de Nietszche, é aquele que foge do padrão e toma como princípio, a liberdade como elemento de transformação. Como diria Mill, uma imaginação sociológica.

O livro é de uma riqueza enorme. É possível, além de uma discussão sobre o ato de ensinar e aprender se fazer uma reflexão sobre o fazer científico e a responsabilidade de se realizar esse tipo de trabalho. Os argumentos são tão fortes que me fez pensar seriamente sobre a minha pesquisa como cientista social.

O texto fala sobre fazer uma ciência pela ciência, e aí que fiquei comigo, será que estou fazendo isso? Que retorno estou dando para a sociedade? Afinal, porque ser cientista? Eu fico aqui lendo teorias tentando ler o mundo social, responder questões. Mas a quem está interessando as minhas questões? Eu sei que trata-se de um trabalho relevante no campo das ciências sociais, todo mundo me diz isso. Mas aí que fiquei, mas relevante para quem? Não trata-se de um trabalho crítico ou coisa parecida, por ser um trabalho antropológico, não pode ser outra coisa, senão a tentativa de interpretação.

Fiquei realmente preocupada, isso é algo que me aflige como um questionamento contundente, que merece mesmo uma reflexão.

Continuei a ler, até que encontrei uma passagem no texto em que o autor diz que por mais que o pesquisador pense que ele não está contribuindo de forma alguma para uma transformação social, ele não deixa de estar dando sua contribuição. Dessa forma, mesmo fazendo leituras, ainda que imprecisas, respondendo a questões antes minhas que de qualquer outra pessoa, estou contribuindo para as possibilidades de leitura. E que o grande desafio, é tornar o trabalho científico possível de ser lido por aqueles com quem realizamos a pesquisa.

Fiquei mais calma, mas sei que essa é uma grande responsabilidade que os cientistas, e digo, mais precisamente, pelos meus amigos das ciências sociais que esse é um grande desafio, pois vai de contra ao que o próprio campo vem produzindo e colocando como correto na pesquisa.

A idéia que se tem é que escrevemos para os nossos iguais, eles que nos julgam que determinam se temos ou não rigor científico. Vejo um pouco de ridicularidade nisso tudo! Para quer pensar em rigor em primeira instancia, quando dever-se-ia se ater a relevância de se fazer dada investigação.

O que eu sei, é que adentrar na área das ciências sociais, seja da licenciatura, seja da pesquisa social, é tomar como sua a responsabilidade em romper paradigmas.

Eu não sei bem ao certo como cheguei até aqui. Não consegui alcançar a minha verdadeira intenção, que era pensar o livro e sua reflexão filosófica do conhecimento e uma poesia que havia lido e que inclusive, teve um trechinho citado pelo Rubens.

Peço desculpa a meus leitores, se é que alguém vai ler esse desabafo (risos). Mas vou seguir em outro texto o que trataria sobre os trechos da poesia. Essas linhas já estão demasiado grandes.

Escrito em 21 de Janeiro de 2011

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Entre cores e ilusões

*À meus amigos cientistas sociais

Eu tenho vontade de dizer alguma coisa,
Mas nem sempre as pessoas estão dispostas a ouvir.
Eu sei que digo as maiores besteiras,
Sei quem nem todo mundo quer falar
De sapos, pássaros ou borboletas...
Que nem todo mundo gosta de antropologia,
Ou quer me ver recitando Tabacaria.
Nem todo mundo diz qualquer coisa,
De qualquer forma,
A qualquer hora,
Num lugar qualquer.
Sei que nem todo mundo sente falta de um abraço,
De ouvir a voz de uma pessoa
Que tenha sido importante em algum dia,
Em algum lugar, ou lugar algum.
Que nem todo mundo tem tempo para pensar no outro,
Nem todo mundo gostaria de rever alguém que passou.
Nem todo mundo quer acordar com o telefone chamando
E do outro lado ouvir alguém chorando.
Eu penso isso e fico lembrando
De meus amigos falando a meus ouvidos
Para eu ver maldade no mundo,
E que tenho que aprender a caminhar sozinha...
E quando eu penso, eu tenho medo,
Sei que enlouqueceria, pois por mais que eu goste
De pássaros e borboletas
Eu não saberia falar com eles.
Eu tenho medo de meus absurdos,
De minha ingenuidade para com o mundo...
Eu tenho medo da rejeição,
De receber um não,
De não ver mais meus amigos da faculdade,
De deixar de gostar antropologia,
De acordar sem luz nos meus olhos,
Sem voz na minha boca,
Eu tenho medo da solidão.
Da amargura de meus dias de pranto.
Tenho medo de esquecer o passado em que fui feliz.
Eu tenho medo de decepcionar o mundo,
De fazer minha mãe sofrer...
Eu tenho medo de ser inteligente e achar que tenho a resposta.
Pior, a resposta certa!
Eu tenho medo de dizer o que alguém devia fazer...
Eu tenho medo de não ter medo!

Escrito por Cicinha Andrade em 05 de Dezembro de 2010

sábado, 6 de novembro de 2010

"O Outro"

Deu vontade de escrever uma coisa, então escrevi qualquer coisa, pensei essa besteirinha, um devaneio!!!

"O outro"

Quem é esse outro que em mim se faz tão importante?

O outro não sou “eu”, nem precisa ser alguém igual a mim.

Não é reflexo,

Nem projeção;

O outro é o outro,

Não é o covarde,

O errado...

O diferente de tudo!

O inferior.

É o outro,

É ele mesmo.

É meu deslocamento,

Minha alteridade

Minha visão fora e dentro de mim...

Eu também sou um outro,

O outro também um eu...

Eu e o outro, ou o outro e eu

É como um “Eu e Tu”,

É como um “Tu e Eu”...

domingo, 17 de outubro de 2010

As Máscaras

As Máscaras


O teu beijo é tão doce, Arlequim...
O teu sonho é tão manso, Pierrô...

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo...
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu...outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar
e , em verdade, toda razão do amor
está na variedade...

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!

Menotti del Picchia

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O VÔO (Menotti del Picchia)

Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o
de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre
para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e
de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.

sábado, 25 de setembro de 2010

Traduzindo-me

No meu peito

Uma crença

Uma busca,

O desejo...


No meu silêncio,

Nenhuma certeza.

O desespero,

Meu acalento.

Minha crise!!


Na minha alma,

A dúvida,

O preço.

Mas que preço?

Novamente o desejo.


Que fizera eu de tão grave,

De tão desumano,

Que não tão meu,

Tão eu?

Escrito por Cicinha Andrade me 25 de setembro de 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Para uma dinâmica do pós-modernismo: Thomas S. Kuhn

(Encontrei este texto feliz!!!, enquanto lia sobre a ciência pós-moderna. Mais uma paixão, Thomas Kuhn ( meus amigos não se admirariam ou se surpreenderiam com isso, já estão acostumados a me ouvir falar de minhas paixões, as minhas tantas, tantas... Enfim). Esse texto me ajuda a pensar a minha prática enquanto pesquisadora aspirante à cientista social (antropóloga).***

Tentar estabelecer uma ligação entre a lógica pós-moderna e a filosofia epistemológica de Kuhn (1922-1996) não é trabalho assaz complexo. Daí que acho risível que a teoria dos paradigmas deste último não seja mais vezes associada à temática da “moral pós-moderna”... Mas veremos que a ideia de Kuhn de que não há uma “verdade”, mas sim várias “verdades”, tantas quantas as realidades científicas que se propõem representar por “modelos” determinados, se aproxima da noção de “pós-modernismo” filosófico que aparece tantas vezes associado às ideias de Michel Foucault e de Jacques Derrida.
Recentemente traduzido para o português nacional, a obra “A estrutura das revoluções científicas” (Guerra & Paz; edição original de 1962) constitui o testamento ideológico de Thomas Kuhn, e este é de tal maneira determinante que não se entende por que é que o citado trabalho só agora foi vertido para a nossa língua.
Como resumir a teoria epistemológica de Kuhn? Começaria por dizer que, para o mesmo, a ideia da existência de uma e só uma Verdade representada por um modelo científico unitário e objectivo, não passa de mera ilusão. Na realidade a ciência é feita de modelos e estes são construídos, em grande parte, pela realidade interna, inextrincavelmente cultural, temporal e multidimensional, do próprio cientista ou grupo restrito de cientistas. Pois a noção de “paradigma” é precisamente a de um código interpretativo da realidade face a um conjunto de leis específicas, sendo que esse mesmo modelo é considerado como sinónimo da própria Verdade. Mas, como vão surgindo novos problemas, e como alguns desses problemas não podem ser resolvidos ou interpretados à luz do código paradigmático prévio e dominante, é inevitável que um novo paradigma acabe por surgir, após uma fase de “revolução científica”. Tudo para que um novo modelo de “ciência normal” volte a imprimir a interpretação da realidade segundo o protótipo novo, que passou a ser o dominante.
A teoria dos paradigmas releva o mundo da ciência como um conjunto de realidades que se vão sucedendo e substituindo, sendo que, por se interpretar a “última” realidade como a real e dominante, se dá a ideia de que essa sucessão não existe e de que uma só visão objectiva do mundo persiste (e sempre persistiu).
O paradigma tem, na sua inerência, não uma tonalidade unionista verdadeiramente objectiva e falsificável, mas sim um contexto, um mundo de significações, que assenta no tecido de crenças de um cientista ou de uma comunidade de cientistas. E, mesmo havendo paradigmas progressivos que sucedem a outros antigos que perderam a capacidade de resolver certos problemas (aparentemente novos), os antigos paradigmas tendem muitas vezes a persistir através da prática da negação da realidade dos novos problemas ou dos novos esquemas da realidade.
Só assim se entende que, por exemplo no mundo da saúde, tantos terapeutas se mantenham fiéis a práticas e modelos que não dão resultado no tratamento de patologias específicas, provavelmente tratáveis com mais eficácia segundo um modelo interpretativo mais ajustado. E só assim se entende, por exemplo, que um doente se mantenha anos a fio no divã de um psicanalista, persistindo este último em interpretar a realidade segundo um esquema (pós)freudiano, porque à luz desse esquema as coisas têm lógica (mas essencialmente para o próprio psicanalista), mesmo que um modelo cognitivo-comportamental surta mais resultados.
Ora, esta ideia que de não há uma ciência, mas sim várias ciências, ultrapassa a concepção simplista de que a realidade é plural e deve ser interpretada segundo uma prática quase “pessoana” (portanto heteronímica), acabando por abraçar o “pós-modernismo” filosófico, que vive das muldimensionalidades interpretativas e desconstrutivas (Derrida) das coisas. Eventualmente poderíamos chegar à interpretação da multimodalidade de modelos em saúde, como representativas de “relações de poder” (Foucault), mas isso seria complicar exageradamente as coisas...
Fiquemos pela ideia de que a existência de várias formas de interpretar a realidade leva a que, na prática, passem a existir tantas realidades quantas as interpretações existentes, pelo que o conceito de Verdade única e absoluta perde-se a favor de uma ciência vertida pela fenomenologia do acto único, livre e singular.
Por causa desta “singularidade”, a ciência feita de estudos qualitativos e descrições psicossociológicas acaba por ser legitimada, abrindo todo um capítulo gigante de subjectivismo de protótipos, para além da inalienável realidade da fraude científica. Daí que, mais uma vez, ciências como a psicologia, a sociologia e a antropologia não possam nunca merecer o mesmo respeito que as ciências exactas e observacionais. Enquanto fisioterapeuta que sou, temo ter de admitir que as ciências médicas estão a aproximar-se cada vez mais das primeiras, fazendo uso de métodos crescentemente questionáveis e pseudo-científicos.

Publicado no As Artes Entre As Letras, 10/02/2010