A palavra e a sua relação com o “eu”
Estava conversando com um amigo muito querido no MSN (pra mim um momento de lazer). E ele sempre muito interessado pela minha vida, o como eu estou, melhor pela minha felicidade. Como me diz: está sempre na torcida por mim. Isso me faz tão bem, tão bem, até porque a gente acredita na gente, porque tem sempre alguém que acredita tanto quanto nós. Perguntou-me se podia saber sobre meus planos profissionais e pessoais.
Não nos conhecemos ao vivo e a cores. Entretanto, construímos uma relação de amizade, de alteridade muito forte e feliz. Gosto muito como ele me vê. Talvez, talvez não, sem dúvida, ele me ver além do que eu sou. Ele vive dizendo que gosta muito de mim, da minha pessoa, e isso porque eu também gosto de mim, e não me esquivo de mostrar isso. Muitas pessoas podem até me achar metida por causa disso, e sei que algumas assim pensam. Mas que nada, minha intenção não é esta, eu é que não sei ser feliz sozinha!Então, demonstro e demonstro muito.
Mas aí que me preocupo com o como ele me ver, não quero decepcionar pessoas que gosto, porém, esse é sempre um risco. A imagem que criamos de nós mesmos, nos impõe um caminho, caminho que tem que agradar não só a nós, mas também aos outros, aqueles que parecem acreditar mais em nós que nós mesmos. Às vezes fico sem jeito e com medo, porque no fim, sou apenas mais um ser humano potencialmente humano, e que por momentos pareço esquecer-me de tal fundamento. Mas sei, não sou só eu que sofro disso.
A pergunta aqui é: quem sou eu enfim?Será que sou uma menina/mulher de pé no chão? Talvez!
Ah eu! Eu e meus passos tornos, meus braços abertos, minha fala engasgada, minhas palavras riscadas, meus versos líricos, minhas revoltas em grito...
Eu não posso estar além de mim. E esse mim, só pode ser meu eu, um eu ora esquecido ora lembrado, às vezes transparente, escondido, legível e ilegível, sei lá! Que quando não noutro lugar. Está cá dentro de mim...
Igual a muita coisa, a muita gente; sou caso, acaso, papel rabiscado!!
É, mas deixa-me voltar a pergunta de meu amigo em relação a meus planos profissionais e pessoais. Respondi para ele que já era muito feliz. Mas que profissionalmente quero um mestrado. Esqueci de dizer que quero também um doutorado, dar aula na universidade, ser pesquisadora, escrever, escrever muito, que quero palestrar, viajar. Referindo-me a meus planos pessoais, falei que isso não dependia só de mim, rs, acho que isso é coisa de gente que é solteira!
Então disse que quero encontrar um tu para meu eu!Acho que não é nem encontrar, talvez perceber, ou ser percebida. Disse ainda, que quero um filho, mas isso é coisa para mais para frente. Filho exige tempo, dedicação, presume uma certa estabilidade e eu ainda sou aluna de graduação.
Não tem aquela historinha de uma árvore, do livro e do filho? A árvore eu já plantei e eis de plantar outras, escrever um livro não será algo tão difícil de ser realizado, então disse que quero um filho. Conclui dizendo que quero ser feliz sem medo de ser feliz! Mas que se conseguisse parte disso já seria muito feliz!
Ele me respondeu perguntando, se eu tinha me tocado de quantas vezes eu havia dito a palavra feliz, aí eu fui contar. Disse quatro vezes. Ele disse que com certeza essa palavra tinha um sigficado importante para mim.
Despedimo-nos, dizendo uma frase ritual até: adoro você, viu?Geralmente ele diz primeiro. Eu respondo: também adoro você!
Pronto, fechei meu mundo virtual, não por isso irreal, e fiquei pensando sobre isso. Mais tarde deitei-me sobre a cama, peguei meu instrumental preferido (papel e caneta com quem tenho uma relação de profunda intimidade) e comecei a deslizar a caneta sobre as linhas. Pus-me a refletir sobre o enunciado das palavras. Pensei no momento, e ainda penso, que elas não só expressam sentidos, mas que também os impulsionam. Quando digo: “Q feliz”, e digo muito isso, o enunciado não só representa um estado de alguma coisa ou de uma pessoa. Vai muito além, expressa o desejo de uma realidade presente que se projeta para o futuro. E assim, a palavra passa a agir sobre nós e não só nós sobre ela. Se na minha linguagem tanto escrita como falada enunciações, como: “q feliz! Amo! q saudade! q lindo!”, aparecem tanto, é porque, entre eu e a palavra se construiu uma relação, e esta passa a ter certo poder sobre meu estado de espírito. De forma que é fala externa e intrínseca.
O que posso dizer, além disso, e digo isso de maneira feliz, é que de uns tempos para cá, tendo em vista essa relação com minha própria fala, estou muito melhor, muito mais feliz, feliz!!!
Escrito por Cicinha Andrade em 13 de Julho de 2010