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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Para uma dinâmica do pós-modernismo: Thomas S. Kuhn

(Encontrei este texto feliz!!!, enquanto lia sobre a ciência pós-moderna. Mais uma paixão, Thomas Kuhn ( meus amigos não se admirariam ou se surpreenderiam com isso, já estão acostumados a me ouvir falar de minhas paixões, as minhas tantas, tantas... Enfim). Esse texto me ajuda a pensar a minha prática enquanto pesquisadora aspirante à cientista social (antropóloga).***

Tentar estabelecer uma ligação entre a lógica pós-moderna e a filosofia epistemológica de Kuhn (1922-1996) não é trabalho assaz complexo. Daí que acho risível que a teoria dos paradigmas deste último não seja mais vezes associada à temática da “moral pós-moderna”... Mas veremos que a ideia de Kuhn de que não há uma “verdade”, mas sim várias “verdades”, tantas quantas as realidades científicas que se propõem representar por “modelos” determinados, se aproxima da noção de “pós-modernismo” filosófico que aparece tantas vezes associado às ideias de Michel Foucault e de Jacques Derrida.
Recentemente traduzido para o português nacional, a obra “A estrutura das revoluções científicas” (Guerra & Paz; edição original de 1962) constitui o testamento ideológico de Thomas Kuhn, e este é de tal maneira determinante que não se entende por que é que o citado trabalho só agora foi vertido para a nossa língua.
Como resumir a teoria epistemológica de Kuhn? Começaria por dizer que, para o mesmo, a ideia da existência de uma e só uma Verdade representada por um modelo científico unitário e objectivo, não passa de mera ilusão. Na realidade a ciência é feita de modelos e estes são construídos, em grande parte, pela realidade interna, inextrincavelmente cultural, temporal e multidimensional, do próprio cientista ou grupo restrito de cientistas. Pois a noção de “paradigma” é precisamente a de um código interpretativo da realidade face a um conjunto de leis específicas, sendo que esse mesmo modelo é considerado como sinónimo da própria Verdade. Mas, como vão surgindo novos problemas, e como alguns desses problemas não podem ser resolvidos ou interpretados à luz do código paradigmático prévio e dominante, é inevitável que um novo paradigma acabe por surgir, após uma fase de “revolução científica”. Tudo para que um novo modelo de “ciência normal” volte a imprimir a interpretação da realidade segundo o protótipo novo, que passou a ser o dominante.
A teoria dos paradigmas releva o mundo da ciência como um conjunto de realidades que se vão sucedendo e substituindo, sendo que, por se interpretar a “última” realidade como a real e dominante, se dá a ideia de que essa sucessão não existe e de que uma só visão objectiva do mundo persiste (e sempre persistiu).
O paradigma tem, na sua inerência, não uma tonalidade unionista verdadeiramente objectiva e falsificável, mas sim um contexto, um mundo de significações, que assenta no tecido de crenças de um cientista ou de uma comunidade de cientistas. E, mesmo havendo paradigmas progressivos que sucedem a outros antigos que perderam a capacidade de resolver certos problemas (aparentemente novos), os antigos paradigmas tendem muitas vezes a persistir através da prática da negação da realidade dos novos problemas ou dos novos esquemas da realidade.
Só assim se entende que, por exemplo no mundo da saúde, tantos terapeutas se mantenham fiéis a práticas e modelos que não dão resultado no tratamento de patologias específicas, provavelmente tratáveis com mais eficácia segundo um modelo interpretativo mais ajustado. E só assim se entende, por exemplo, que um doente se mantenha anos a fio no divã de um psicanalista, persistindo este último em interpretar a realidade segundo um esquema (pós)freudiano, porque à luz desse esquema as coisas têm lógica (mas essencialmente para o próprio psicanalista), mesmo que um modelo cognitivo-comportamental surta mais resultados.
Ora, esta ideia que de não há uma ciência, mas sim várias ciências, ultrapassa a concepção simplista de que a realidade é plural e deve ser interpretada segundo uma prática quase “pessoana” (portanto heteronímica), acabando por abraçar o “pós-modernismo” filosófico, que vive das muldimensionalidades interpretativas e desconstrutivas (Derrida) das coisas. Eventualmente poderíamos chegar à interpretação da multimodalidade de modelos em saúde, como representativas de “relações de poder” (Foucault), mas isso seria complicar exageradamente as coisas...
Fiquemos pela ideia de que a existência de várias formas de interpretar a realidade leva a que, na prática, passem a existir tantas realidades quantas as interpretações existentes, pelo que o conceito de Verdade única e absoluta perde-se a favor de uma ciência vertida pela fenomenologia do acto único, livre e singular.
Por causa desta “singularidade”, a ciência feita de estudos qualitativos e descrições psicossociológicas acaba por ser legitimada, abrindo todo um capítulo gigante de subjectivismo de protótipos, para além da inalienável realidade da fraude científica. Daí que, mais uma vez, ciências como a psicologia, a sociologia e a antropologia não possam nunca merecer o mesmo respeito que as ciências exactas e observacionais. Enquanto fisioterapeuta que sou, temo ter de admitir que as ciências médicas estão a aproximar-se cada vez mais das primeiras, fazendo uso de métodos crescentemente questionáveis e pseudo-científicos.

Publicado no As Artes Entre As Letras, 10/02/2010

domingo, 15 de agosto de 2010

Um ponto de vista sobre o trabalho antropológico


É uma tendência humana pensar que somente nós sabemos e podemos falar sobre as coisas, sobre o mundo dos outros. Quando não atribuímos esse papel a nós mesmos, no mínimo, o designamos a alguém cujo consideramos capacitado para tal coisa. Ignorância nossa, ninguém pode falar sobre o mundo do outro de forma tão precisa quanto ele mesmo.

Pensar sobre essa questão é colocar em debate uma discussão antropológica importante. Chamo a atenção para isso, porque estou iniciando meus trabalhos de campo partindo do método antropológico. Este valoriza antes de qualquer coisa a própria fala do sujeito (isso é fascinante). Longe de mim, achar que o que eu li antes de vir a campo, e li muita coisa sobre a área que pesquiso me é o suficiente para interpretar o mundo empírico com o qual eu pretendo trabalhar. Longe de mim, querer enquadrar essas práticas sociais dentro de uma teoria como se eu estivesse falando alguma verdade, como se eu fosse a cientista social (antropóloga) que soubesse como organizar, controlar o meu campo, o mundo do outro que não o meu próprio.

Como é difícil ser tal coisa, ou melhor, aspirante de. Ser ou tentar ser antropóloga,é antes e acima de tudo, reconhecer tal humildade, pois, não somos nós técnicos treinados para pensar a verdade sobre um dado mundo empírico. Somos pessoas comuns, com limitações. De forma que nossas lentes mesmo teóricas nos enganam, nos cegam, ou seja, trabalhamos em meio à imprecisão. Somos tanto quanto as outras pessoas humanas, carregadas de subjetividade, desejo, preconceito...

Não quero a partir desse discurso “matar a ciência”, ou dizer, que cientista social não faz ciência, lógico que não é isso, até porque, sou muitíssimo apaixonada pelo que faço, acredito nas ciências sociais. O que exponho se apresenta como uma maneira de me policiar, meu propósito é refletir, é refletir sobre sua limitação. Pois, não se deve acreditar cegamente em nada, nem mesmo na ciência para quem acha que é isso uma grande descoberta. Não é ela a única forma de conhecimento válido. Logo o cientista não é mais sábio que o homem que trabalha na plantação, o marceneiro que dá forma a madeira, o cozinheiro (a) que assa o bolo... "O cientista não sabe mais sobre política que o cidadão comum". O que existe são formas diversificadas de conhecimento, são maneiras diferenciadas de entender, de compreender o mundo, o mundo que não de outro, mas o nosso próprio.

Nesse caso, qual seria o papel da ciência e do antropólogo? O que faz a antropologia? Sobre a ciência (a ciência social), o que posso dizer, é que ela não controla nem organiza nada, nem deve ter isso como pretensão. Como ciência antropológica, se utiliza de elementos teóricos para pensar o mundo empírico. Porém, sem tentar enquadrá-lo dentro de teorias. Dialoga, conversa com o campo, se coloca dentro do campo. Ela impulsiona os sujeitos pesquisados a pensar sobre seu próprio cosmo (mundo). A antropologia reconhece e se alicerça sobre a teoria nativa. Pensa o campo a partir do campo. Seu papel é traduzir o que e como pensam os atores sociais. Entendendo suas práticas como algo que não se repete da mesma forma em diferentes contextos. Mas que acontece de tal maneira em dados espaços, porque, as experiências dos sujeitos, suas vivências se diferenciam de tantas outras em tantos outros lugares.

São nas particularidades de cada cultura que antropologia se permite ser antropologia (lembrando: isso na sua perspectiva pós-moderna. Longe de pensarmos como Lévi- Strauss e seu estruturalismo, porém, sem negar sua contribuição que é muito válida para a antropologia). É, não vou mais citar ninguém agora, deixarei para citá-los em artigos, senão vou querer citar tanto, já que gosto tanto e de tantas coisas que esse texto vai parecer mais um artigo, e isso não é a intenção.

Voltemos, e o antropólogo, o que faz? Na tentativa de ser ou tentar ser tantas outras coisas, a meu ver, ele só pode ser o tradutor da fala do outro, o interprete de uma teoria (isso é lindo)!!! Como se sabe e se diz muito; “toda tradução é imprecisa”, (isso é feliz)! A antropologia é, e isso é apenas mais um ponto de vista de uma aspirante à antropóloga (estudante de antropologia política), um olhar, outro olhar sobre esse outro, uma segunda leitura, e aí me vem Geertz, (desculpem-me mais uma vez, difícil não teorizar). É outra visão, e assim sendo, ora somos cegos pela luz intensa, outrora impedidos de ver na escuridão, (isso se fortaleceu em mim a partir da fala de minha amiga Fabi, antropóloga mestranda da UFBA – Universidade Federal da Bahia).

Escrito por Cicinha Andrade em 15 de agosto de 2010